sexta-feira, 18 de abril de 2025

Nem todo tumor cresce: o que Listernick nos ensinou sobre NF1 e visão infantil

Ao receber o diagnóstico de neurofibromatose tipo 1 (NF1) em uma criança, um dos maiores temores dos pais e médicos é o desenvolvimento de tumores nas vias ópticas. Afinal, esses tumores podem levar à perda visual irreversível, puberdade precoce e, em alguns casos, necessitar de tratamento cirúrgico ou quimioterápico. Mas será que todos esses tumores são progressivos? Devemos mesmo fazer exames de imagem em todas as crianças assintomáticas?

No estudo publicado por Listernick et al. (1994), acompanhando 33 crianças com OPT associada à NF1, os pesquisadores descobriram algo surpreendente: a maioria dos tumores não cresce após o diagnóstico — e muitos são assintomáticos por anos. O estudo levanta questões importantes sobre a real necessidade de screening com neuroimagem em crianças sem sintomas e reforça a importância de uma vigilância oftalmológica regular e atenta.

📖 Se você é médico, oftalmologista pediátrico, neurologista ou pai de uma criança com NF1, este resumo pode mudar a forma como você entende e acompanha os tumores de vias ópticas nessa população. 

🧠 Resumo – Listernick et al., 1994

Título: Natural history of optic pathway tumors in children with neurofibromatosis type 1
Publicação: The Journal of Pediatrics, 1994

🎯 Objetivo

Avaliar, por meio de um estudo prospectivo e longitudinal, a incidência e evolução dos tumores de vias ópticas (OPT) em uma população não selecionada de crianças com NF1, observadas em clínica especializada.


🧒 População e métodos

  • 227 crianças com NF1 acompanhadas entre 1985–1993.

  • 176 (77%) foram submetidas a neuroimagem (TC até 1988 e, posteriormente, RM).

  • 33 crianças (19%) apresentaram tumores nas vias ópticas.

  • Acompanhamento com neuroimagem periódica e exames oftalmológicos seriados (intervalos definidos).

  • OPT classificados em dois grupos:

    • Grupo 1: Tumores assintomáticos no diagnóstico (76%).

    • Grupo 2: Tumores com queixas visuais ou clínicas (24%).


🔬 Resultados principais

  • Incidência de OPT assintomáticos: 15%

  • Idade mediana ao diagnóstico: 4,2 anos

  • Todas as crianças sintomáticas foram diagnosticadas antes dos 6 anos de idade

  • Localização do tumor:

    • Intraorbital isolado: 15 casos

    • Quiasma óptico isolado: 4 casos

    • Óptico + quiasma: 14 casos

👁️ Achados oftalmológicos no diagnóstico:

  • 21 crianças (64%) com exame oftalmológico normal

  • 12 crianças (36%) com diminuição da acuidade visual (todas com envolvimento quiasmático)


📈 Evolução e prognóstico

  • 88% dos pacientes não apresentaram progressão (nem de imagem nem visual).

  • Apenas 3 pacientes (9%) apresentaram piora clínica ou radiológica.

  • Tumores limitados ao nervo óptico intraorbital não evoluíram para o quiasma.

  • Precocidade (idade < 6 anos) e envolvimento quiasmático foram os fatores mais associados a progressão.


🩺 Conduta terapêutica

  • 5 crianças foram tratadas:

    • 3 cirurgias por proptose e cegueira unilateral.

    • 2 com quimioterapia experimental (carboplatina).

  • 7 crianças com puberdade precoce foram tratadas com análogos do LHRH.


📚 Conclusões

A maioria dos tumores de vias ópticas em crianças com NF1 é clinicamente indolente após o diagnóstico.
Screening com neuroimagem em crianças assintomáticas tem utilidade limitada, especialmente após os 6 anos.
Exames oftalmológicos seriados são fundamentais na vigilância da população pediátrica com NF1.

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