sexta-feira, 18 de abril de 2025

Você conhece os 5 graus de Hunt-Hess? Aprenda com o artigo que marcou a história da neurocirurgia

 Você sabia que a gravidade de um aneurisma cerebral roto depende mais do estado clínico do paciente do que do tempo desde o sangramento?

E que, com a abordagem correta, muitos pacientes inicialmente graves podem ser operados com segurança?

Em 1968, dois neurocirurgiões da Universidade de Ohio — Hunt e Hess — publicaram um trabalho que mudou para sempre a forma como avaliamos o risco cirúrgico dos aneurismas cerebrais. A famosa classificação de Hunt-Hess não só orienta decisões clínicas até hoje, como também lançou as bases para estratégias mais seguras e individualizadas no tratamento neurocirúrgico.

Neste post, você vai conhecer os detalhes desse estudo clássico: como ele foi feito, o que ele descobriu, e por que ainda merece ser lido (e relido) por todos que atuam com neurocirurgia, neurologia e cuidados intensivos.

Resumo – Hunt & Hess, 1968

Título: Surgical Risk as Related to Time of Intervention in the Repair of Intracranial Aneurysms
Autores: William E. Hunt, M.D., e Robert M. Hess, M.D.
Instituição: Ohio State University College of Medicine

🎯 Objetivo

Avaliar o risco cirúrgico em pacientes com aneurisma intracraniano roto em função de sua condição clínica no momento da cirurgia, propondo uma classificação prognóstica baseada na intensidade da reação meníngea, déficit neurológico e doenças associadas.

📊 Classificação de Hunt e Hess (modificação de Botterell)

  • Grau I: Assintomático ou apenas cefaleia leve e rigidez de nuca discreta.

  • Grau II: Cefaleia moderada a intensa, rigidez de nuca, sem déficit neurológico (exceto pares cranianos).

  • Grau III: Sonolência, confusão, ou déficit focal leve.

  • Grau IV: Estupor, hemiparesia moderada a grave, sinais de descerebração precoce.

  • Grau V: Coma profundo, descerebração, estado moribundo.
    Obs.: Doenças sistêmicas graves e vasoespasmo severo rebaixam um grau.

🏥 População estudada

  • 275 pacientes com aneurisma intracraniano roto operados ao longo de 12 anos.

  • Classificação aplicada na admissão e imediatamente antes da cirurgia.

🔍 Resultados principais

  • Mortalidade geral: 35%.

  • Mortalidade conforme grau cirúrgico:

    • Grau I: 1,4%

    • Grau II: 22%

    • Grau III: 40%

    • Grau IV: 43%

  • Principais causas de morte: ressangramento e infarto cerebral.

  • Reforçam que o maior risco está associado ao estado clínico no momento da cirurgia, e não ao tempo absoluto desde a hemorragia.

🛠️ Condutas propostas

  • Cirurgia precoce (preferência < 24h) para pacientes em Grau I ou II.

  • Conduta conservadora e aguardar melhora para pacientes Grau III ou superior, exceto em casos de rebleeding recorrente ou hematoma com efeito de massa.

  • O atraso cirúrgico não aumentou significativamente a mortalidade por rebleeding em pacientes Grau III, e permitiu melhora clínica significativa (55% melhoraram para Grau I ou II).

📚 Conclusões

  • A condição neurológica do paciente é o melhor preditor de risco cirúrgico.

  • Cirurgias em pacientes alertas e sem déficit são altamente seguras.

  • Aguardando melhora clínica, muitos pacientes inicialmente graves tornam-se bons candidatos cirúrgicos.

  • Reforçam que a mortalidade de 30-33% para aneurismas não deve ser aceita como padrão e pode ser reduzida com adequada seleção e tempo cirúrgico.

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